Nova Europa (SP) – Um experimento conduzido na Usina Santa Fé demonstrou que o xarope produzido a partir da cana-de-açúcar permanece com qualidade estável por até 24 horas depois da colheita, mesmo quando o material é armazenado picado.
A pesquisa foi liderada pelo agrônomo Leonardo Lucas Madaleno, professor do curso de Biocombustíveis da Fatec Nilo De Stéfani, em Jaboticabal (SP). O trabalho, apoiado pela Fapesp, avaliou safras 2015/2016 e 2016/2017 e buscou mensurar perdas ocasionadas pelo intervalo entre corte e processamento em usinas sucroalcooleiras.
Como o ensaio foi executado
Funcionários da usina simularam “estoque sobre rodas” colocando cana picada em caixas plásticas perfuradas de 30 cm × 51 cm × 33 cm. As caixas ficaram expostas às mesmas condições de transporte dos caminhões carregados. No primeiro ano, amostras foram processadas a cada seis horas; no segundo, a cada 12 horas.
Pesagens periódicas permitiram comparar cada intervalo com o “tempo zero”, imediatamente após a colheita. Em seguida, os pesquisadores extraíram o caldo, analisaram sua composição e o destinaram a duas rotas: concentração em evaporador para produzir xarope (intermediário do açúcar) e fermentação para gerar vinho (base do etanol).
Resultados obtidos
Açúcar: até 24 horas de armazenamento não alteraram a qualidade do xarope, porém houve perda de quase 10 % da massa da cana. Após esse período, intensificou-se a quebra de sacarose, exigindo mais leite de cal na clarificação e elevando a presença de cinzas no produto final.
Etanol: usando levedura de pão, o vinho apresentou estabilidade por até 48 horas. Depois disso, verificou-se redução no rendimento fermentativo e aumento de moléculas secundárias, dificultando a destilação.
Influência do clima e das impurezas
Os cientistas notaram maior contaminação quando a cana foi estocada no início ou no fim da safra, períodos de maior incidência de chuvas. A água da precipitação diluiu sacarose presente nos colmos, causando perdas adicionais.
Imagem: Leonardo Madaleno via globorural.globo.com
Madaleno ressalta que, embora não seja prática comum reter cana picada por mais de 24 horas, situações de safra acelerada ou restrição de capacidade industrial podem levar as usinas a estender o armazenamento. “Há pouca pesquisa sobre cana picada parada por mais de um dia, sobretudo em ambiente real de usina”, afirmou.
O projeto recebeu recursos do Programa BIOEN, da Fapesp, que cobriram compra de equipamentos, reagentes e logística para coleta e transporte das amostras.
Comprovada a estabilidade de até 24 horas para o açúcar e 48 horas para o etanol, os autores recomendam processamento o mais rápido possível para reduzir perdas de massa e evitar impactos na clarificação ou fermentação.
Com informações de Globo Rural
